SNN Entre Linhas – A Autópsia ou “coisas para se fazer quando se está morta”

ESTA RESENHA CONTÉM SPOILERS DO FILME

 

De início, um conselho: Veja A Autópsia sem saber nada sobre A Autópsia.

A experiência é muito melhor se você não sabe se é um filme de fantasma, um suspense, ou um zumbizão raiz. Então, se você não assistiu, recomendo fortemente que faça isso antes de continuar a ler. Vai lá, vou até dar umas linhas de lambuja.

Ok, se você voltou para o texto depois de ver o filme, você acabou de participar do meu plano sórdido para fazer todo mundo clicar mais de uma vez no site e assim nos deixar milionários. Muahahaha!

Voltando…

A história do filme começa quando alguns corpos são encontrados em uma casa e um deles é de uma mulher não identificada que não apresenta sinais aparentes da causa de sua morte. O corpo dessa “Jane Doe”, que é o feminino de “Zé Ninguém” para os gringos, é levado para um necrotério/funerária onde acontecimentos sinistros tirarão a paz do velho médico legista (Brian Cox) e de seu filho (Emile Hirsch).

O roteiro é interessante e dá boas dicas de sobrevivência num filme de terror, do tipo: nunca tente chegar de mansinho em ninguém em um necrotério e se não tem pelo menos um representante de uma minoria no elenco, o primeiro a morrer é o gato (vide Cemitério Maldito).

O filme é bem enxuto, se passa praticamente todo no necrotério, ele vai criando um clima de tensão crescente e explorando aquela claustrofobia marota que esses filmes de terror de baixo orçamento adoram e é claro, sem falar naquele sininho maldito anunciando a proximidade do morto vivo andante.

Só para o caso do filme ter te traumatizado de verdade, o medo do toque de sinos se chama Kampanaphobia.

Outro toque especial na história, é aquela musiquinha falsamente alegre que toca toda hora e que você tem certeza que vem diretamente do top 10 da billboard do inferno. Sério, ouve só:

Os efeitos especiais são bem econômicos, mas passáveis, muita coisa não é vista, só ouvida, o que é uma ótima estratégia se você não tem muita grana. O único momento em que se exigiu mais foi no cena do incêndio, que foi bem mais ou menos, mas não chegou a ofender.

Tenho que dizer que fiquei imaginando como deve ter sido esquisito para a Olwen Kelly, atriz que fazia o cadáver, gravar as suas cenas, num estúdio cheio de gente, de lente de contato branca, peladona, prendendo a respiração… O bom foi que a cena de nudez obrigatória já foi tirada do caminho desde o começo do filme.

Essa coisa do cadáver paradão me acertou em cheio, porque algo que sempre me assustou foi o movimento de coisas que, em teoria, não deveriam se mexer, logo estátuas vivas pedindo dinheiro na praça são minha kriptonita, atravesso a rua, contorno a praça ou finjo desmaio para não encarar os malditos, então você realiza daí a agonia de passar o filme todo na tensão, com o olho colado na defunta em todas as cenas que ela aparece, esperando a presunta mexer…

Mas tirando um dedão aos 45 do segundo tempo, ela não mexe, nem um músculo, nem uma piscadela, nem um sorriso traquina de satisfação no final do filme. Tudo isso porque ali só tem o que sobrou daquela mulher, uma mente vingativa movida por um ódio poderosos mal resolvido de alguém que foi morto como bruxa e que muito provavelmente acabou arrumando esquemas maneiros com o capiroto.

Outra coisa assustadora no filme, é a perspectiva de ainda sentir tudo que fazem com seu corpo depois de ser dado como morto. Lembro que quando eu era criança, vi um episódio de contos da cripta chamado “Abra Cadaver” em que um homem sente tudo que acontece durante sua autópsia e fica gritando mentalmente sem ninguém ouvir e eu, com meus conhecimentos limitados sobre biologia na época, fiquei bastante abalada pensando que não tinha como as pessoas saberem com certeza se quem está morto realmente não sente nada.

Para finalizar, eu poderia problematizar todo o filme e dizer que a bruxa foi morta pelo medo e ódio do patriarcado e que ela volta de tempos em tempos para matar vários machos e se vingar do que sofreu, tipo “toma essa misandria, motherfockars!!”

Mas eu estaria falando merda e, como esse é o meu primeiro texto no Sabre, não sei nem se a palavra “merda” vai passar na edição.

Perguntar não ofende:

Por que só tinham pressa na autópsia da mulher?

Será que dá para encaixar um prequel?

Uma sequência, já que o corpo foi mandado para uma universidade?