SNN Entre Linhas – De Canção em canção ou Closer com o Ryan Gosling

Existem várias formas de você ver de canção em canção, mas já adianto: a minha é a errada.

Com certeza não é um filme feito para pragmatistas cínicos, pessoas com déficit de atenção ou pessoas que acham que o Ryan Gosling e a Rooney Mara têm cara de bunda.

Eu tiquei os três itens da lista, logo eu posso garantir a vocês que o que eu vi não era o que o diretor queria passar com o filme, porque certamente a visão dele da história não incluía a frase “gringos com cara de paisagem arrumando desculpas filosóficas e contemplativas para as cagadas que eles fazem quando estão chapados.”

Bem, a sinopse oficial o descreve desta forma: “Nesta história de amor moderna, ambientada na cena musical de Austin, Texas, dois casais interligados – os compositores Faye (Rooney Mara) e BV (Ryan Gosling), o magnata da música Cook (Michael Fassbender) e uma garçonete que ele ilude (Natalie Portman) – buscam o sucesso num cenário de rock’ n’ roll, sedução e traição.”

Mas se eu fosse usar termos matemáticos, dividiria o filme assim:

1/3 parece aqueles clipes musicais com montagens de cenas de turnê que algumas bandas fazem quando já estão parando de trabalhar o álbum e não querem mais gastar dinheiro com ele;

1/3 é sexo, drogas e rock n roll (basicamente o que realmente deve acontecer numa turnê);

O 1/3 que resta parece uma grande live do passeio de um casal de instagrammers pela natureza e fazendo poses “fofas” para ganhar like.

Mas o filme é mais que isso, eu sei disso e escrever sobre ele é um exercício para exorcizar certos preconceitos meus.

Os personagens principais buscam o tempo todo entender a si próprios, o que sentem e porque estão presos a determinados padrões de comportamento, isso faz com que seja um filme contemplativo, um filme contemplativo de 129 minutos (duas fucking horas e nove minutos), logo dá para perceber que ele exige um certo comprometimento por parte da audiência, ela realmente tem estar na vibe do filme.

Eu consigo visualizar o que as pessoas vão gostar nele, atores consagrados atuando soltos em uma obra autoral sem aparentes pretensões de ser um sucesso comercial, alguns podem até se identificar com as contemplações dos personagens, talvez o monstro que te devora seja um pouco parecido com o deles.

Também dá para ver que o diretor tentou experimentar com a forma com que ele conta a história e a forma de filmar, mostrando a beleza enterrada na melancolia dos personagens, acredito que isso pode tornar o filme bem interessante para quem estuda cinema.

A produção do filme não poupou nomes da sua lista de contatos, temos várias aparições de músicos famosos dentre eles, Patti Smith, John Lydon, Iggy Pop… Podia se ouvir claramente, de longe, o som de um órgão sexual masculino sendo colocado em uma mesa para fins de exposição.

A trilha sonora também é boa e passeia por diversos gêneros musicais, desde Bob Dylan, The Stooges, passando por música clássica e indo até aquelas músicas eletrônicas que eu estou velha demais para conhecer.

Enfim, se você aprecia uma boa fotografia, festivais musicais e o amor sendo dissecado em voice-over enquanto olha para o rosto da Rooney Mara, certamente este é o seu filme, com certeza não meu, mas viva a diferença.

Questões existenciais de suma importância:

Sempre que Michael Fassbender dá uma pirada, você fica achando que ele vai infectar alguém com uma forma de vida alienígena?

Se a Natalie Portman fizer mais um filme parecido com Closer, ela vai poder pedir música no Fantástico?

O quão difícil deve ser para o Ryan Gosling sentar no piano e não tocar City of Stars?

  • Marcelo Alvim Tchelos

    Opa, legal, também achei por aí, não dá, escrevi que esse filme era um anti-filme, que horror, rsss, amei sua critica e a forma que escreve, bem dinâmica e descontraída, nos atrai, diverti e informa!!!!