“Estou velho demais pra isso.”

Depois de alguns anos participando dessa indústria vital que é o cinema, às vezes me deparo com situações que trazem ao meu pensamento essa máxima do personagem Roger Murtaugh, da franquia Máquina Mortífera.

Muitos dos filmes que estão sendo exibidos hoje em dia são repaginações dos clássicos dos anos 70 e 80, sendo que, nascido em 1982, pude aproveitar alguns dos filmes originais, na época em que ainda estavam em voga. Claro, filmes clássicos nunca deixarão de estar em destaque, mas, assim como o Fábio, eu pude assisti-los enquanto ainda exalavam aquele atrativo ar de frescor e novidade. As idéias não eram exatamente novas, afinal, o cinema já é um senhor centenário e, como diria o saudoso Chacrinha, “nada se cria, tudo se copia”.

Mas na minha infância cinematográfica, não havia milhares de páginas de internet cuspindo cada migalha de informação sobre produções que só vão ser efetivamente trazidas ao público daqui a alguns meses, talvez anos. Também não haviam previews, teasers, trailers, nem todo esse aparato que acaba com a expectativa de qualquer cinéfilo. Nós só tomávamos conhecimento de um filme quando o jornal, de papel, divulgava, ou na própria sala de cinema, no momento em que já estávamos prestes a assistir a um dos filmes que viemos a tomar conhecimento pela televisão.

Nós, integrantes da geração X, nascemos antes do surgimento da internet no Brasil, antes mesmo da popularização do CD, e quando a vontade de rever um filme apertava, alugávamos um VHS na locadora mais próxima de casa.

Neste período, os efeitos especiais eram mais práticos, menos computadorizados ou eletrônicos, e a falta de referências era tão gritante que o Godzilla daquela época ou o Stay Puft, dos Caça-Fantasmas, eram seres que nos causavam pesadelos tenebrosos.

Mas hoje em dia, com o desenvolvimento tecnológico desenfreado, e o barateamento dos meios de criação de efeitos, mesmo uma criança dentro de uma garagem pode gerar um filme com qualidade inacreditável, digno dos grandes blockbusters de Hollywood.

Além disso, a concorrência acirrada entre as grandes produtoras cinematográficas faz com que toda a expectativa pelos filmes que fizeram parte do nosso imaginário infantil seja lavada a jatos de água fria com este excesso de trailers e fotografias dos sets de filmagem.

Um dos maiores exemplos dos excessos cometidos pelos filmes atuais é a saga Transformers, que exagerou tanto nos efeitos visuais que, em determinadas cenas, não conseguimos compreender como se compõem os robôs, ou sequer saber o que está passando pela tela.

Destaca-se também a disputa de projetos entre os heróis da Marvel e da DC, que enchem os espectadores de promessas e informações, fazendo com que a espera por um filme não seja mais fruto da imaginação vertente dos quadrinhos, mas florescida através de milhões de fotos ou vídeos que jorram a cada minuto em nossos computadores, e que nos impede de produzir uma esperança própria, que não aquela praticamente imposta pelas produtoras.

Diante da excessiva velocidade com que as notícias nos chegam ao conhecimento, não é raro que vejamos ânimos tão exaltados em todos os sentidos, pois este excesso de informação causa um frenesi que foge do controle, e nos impede de ficar satisfeito com o que nos é oferecido pelos meios de mídia.

Consequentemente, o que se vê nas grandes redes sociais é uma insatisfação contagiosa, que me leva a ficar cada vez mais temeroso, e algumas vezes até afastado desta busca por fontes de informações que, de tão intensas, provocam o medo de ser tragado ao esquecimento, ou ao comportamento de gado, participando do cardume que diariamente é inevitavelmente atraído pela já muito conhecida isca do ineditismo.

Cabe às gerações posteriores, já nascidas sobre a onda da tecnologia, traduzir este novo mundo para nós. Sim, pois já foi esse o nosso papel em dado momento, e ora é passado o bastão do entendimento a estes herdeiros de um mundo tão unificado pela era da informação.

Se antes o “efeito borboleta” acontecia sem que a gente tivesse conhecimento, hoje, quando uma borboleta bate as asas na China, todos os lugares do mundo estão vendo em tempo real, e são as novas mentes que vão antecipar os efeitos para que não haja mais vítimas do mero acaso. Mas com organização, por favor, e sem destruir o nosso interesse!

Por Marcos Moreira: que acha que pode, mas não abraça mais o mundo com as pernas.