Rachando a Noz

Acordo antes do sol nascer com o choro do Fabrício. Demoro um pouco pra levantar, quando chego ao quarto do lado ele já está de pé no berço. O sono dele já acabou, mas o da mãe não. Durante a noite acordou três vezes.

Pego ele no colo e vamos para a sala que já está forrada com tapete de borracha e tem brinquedos espalhados por toda parte. Coloco ele sentado no centro do tapete e vou repousar no sofá. Ainda estou sonolento, mas meu bebe já quer iniciar suas brincadeiras. Parte engatinhando para o móvel da TV que não tem mais os DVDs e Bluerays a mão, estão todos escondidos para evitar uma bagunça maior ainda. Diversas partes e peças de brinquedos estão nas prateleiras e sobre a bancada.

O primeiro objeto que ele pega é o iPad que está na prateleira de baixo. O aparelho está dentro de uma capa de plástico infantil para proteção. Embora há um tempo eu tenha pisado e queimado uma faixa da tela. Pelo menos com a capa não tem como o iPad ficar pior.

 

iPad Mod

 

Com a intenção de que o Fabrício faça menos barulho coloco ele no meu colo e ligo o Netflix no iPad. Seleciono a parte infantil e quando aparecem na tela vários quadrados coloridos para escolher, ele começa a bater na tela descoordenadamente como se quisesse imitar meus comandos.

Totalmente ao acaso o Fabrício dá início a reprodução do filme “Em busca do vale encantado”, logo perde o interesse e vai atrás de outra coisa pra brincar. Mas por alguns minutos eu assisto o início do filme e me perco em pensamentos passados…

Estou com uns dez anos de idade e devia estar assistindo a finada “sessão da tarde”, está passando alguma reprise qualquer. Era uma das melhores épocas da minha vida. Depois da escola, não havia nenhuma outra obrigação. Durante um dos inúmeros intervalos comerciais me chama atenção o início de um trailer de animação que destaca ser uma “produção de Steven Spielberg”, e mesmo com minha pouca idade já o identificava como envolvido em E.T. e Indiana Jones.

A história era simples: o personagem principal junto com sua turma de amiguinhos deveria chegar ao local do título, passando por muitos perigos e aventuras que trariam lições de amadurecimento. O filme iria passar nos cinemas. Fiquei com muita vontade de ir. Não fui. Acabei assistindo “Em busca do vale encantado” pela primeira vez, na mesma “sessão da tarde” provavelmente como reprise.

O Fabrício faz mais barulho e acorda a mãe que nos chama. Começamos um novo dia tomando juntos o café da manhã.

Por Fábio Moreira: Pai que gosta de acordar cedo e ver filmes selecionados pelo filhote.