SNN Entre Linhas – Raw ou Porque Passei a Esconder os Dedos Perto de Vegetarianos

Filmes franceses tendem a passar por cima da minha cabeça, exceto Asterix, mas eu não sei se esse conta, logo, juntando isso aos comentários que eu já tinha ouvido sobre esse filme, já fui assisti-lo prevendo que terminaria com aquele espírito de “what the fuck eu acabei de assistir?”

Para falar a verdade, não passou completamente por cima da minha cabeça, eu consegui sacar as alegorias, muitas nem são tão sutis assim, mas a impressão que deixou foi de que algumas ideias ficaram subdesenvolvidas e o filme tinha potencial para ser melhor do que realmente foi, o que não quer dizer que ele precise de muitas explicações, mesmo sendo difícil de aceitar que, em uma faculdade de veterinária fictícia, cause mais estranhamento ser vegetariano do que meter o louco e tentar arrancar um pedaço do braço dos outros.

Dentre as alegorias menos sutis temos o despertar da sexualidade e a transição para a vida adulta, a camada menos óbvia dentro da proposição do filme, que foi a que eu mais gostei, se relaciona à irmã mais velha que tenta impor o seu caminho e a sua forma de lidar com aquela situação à irmã mais nova, sempre sonegando informações e em muitos momentos, tirando o direito de escolha da protagonista.

Eu poderia também embarcar de vez no bonde da problematização e falar sobre a demonização do desejo sexual feminino, mas não sei se tenho braços para cavar tão fundo e provavelmente vou acabar com dor nas costas.

Outra mensagem interessante é que no caminho da autodescoberta, você talvez não goste do que vai encontrar. É só lembrar que todo mundo tem os seus demônios, mas nem todos podem dizer que os seus devoram universitários. Provavelmente, de uma certa forma, isso dê uma variada do bom e velho alcoolismo que nós normalmente descobrimos na faculdade.

O bullying também é abordado no filme, a personagem principal é hostilizada pelos veteranos por ser caloura e sofre um tipo de assédio moral de um professor, por ser inteligente (é isso mesmo que você está lendo). Os trotes são pesados e sem noção, bem daquele jeitinho especial que a galera de ciências biológicas gosta.

O filme tem um gore interessante, não é o meu estilo de terror favorito, mas tem que ser dado mérito da forma como a diretora consegue causar repulsa em cenas que não chegam nem perto do temido canibalismo da premissa, por exemplo, a cena em que a personagem principal tem uma crise alérgica e começa a se coçar descontroladamente fez com que o meu rosto quase virasse do avesso de nervoso e fizesse eu me perguntar se era masoquista por estar assistindo aquilo por livre e espontânea vontade.

As atuações são bem… hum… Francesas?
Digamos que não é à toa que eles inventaram o termo blasé, mas dentro do espírito do filme funciona.

A revelação no final de que tudo se trata de um problema de família não é exatamente surpreendente e traz a conclusão pessimista de que não existe exatamente uma forma de se livrar dos impulsos canibais, mas apenas a tentativa de viver com eles, ou nas palavras da própria diretora: “Encontrar humanidade dentro de uma situação monstruosa”.

Em resumo, é um filme difícil de digerir (desculpem a piada infame), você vai ficar ruminando (novamente!) muito tempo depois dele ter acabado, pensando qual é o propósito de tudo aquilo e é claro, ele definitivamente não é para as pessoas mais sensíveis, nem para as que se ofendem fácil.

Dúvidas sobre a alta gastronomia francesa:

Será que os vegetarianos gostam tanto de falar que são vegetarianos porque tem medo de escorregar uma carne na comida e eles virarem canibais?

Quantas vezes o cinema francês fez você desistir de comer quibe crú?

Para o Hannibal Lecter, esse filme seria só mais um episódio de Masterchef?

  • Katia Barga

    Não sei se tenho estômago pra ver esse filme, mas adorei o texto 🙂