Um Adeus Feliz

Desde que me conheço por gente, Roberto Gómez Bolaños, o Chespirito, fez parte da minha vida.

Este Shakespeare alternativo, pois nunca tive o gosto apurado o suficiente para conhecer o original, sempre ocupou o meu horário de almoço, fosse na forma dos programas do Chaves do Oito, ou do Chapolin Colorado.

Posteriormente cheguei a saber que havia o Programa Chespirito, que passou durante algum tempo no canal 9 aqui do Rio de Janeiro, mas este programa não era provido de tanta magia, para mim, quanto os citados acima, principalmente porque o Chapolin e o Chaves já faziam parte da minha rotina, desde sempre. Nesta ordem.

Normalmente as crianças se identificam mais com o Chaves, tanto por gostar do ar inocente e cheio de energia dele, quando pela idade que o personagem tem, cerca de oito anos.

Mas para mim, o Chapolin sempre foi o melhor dos personagens de Bolaños.

Primeiro, porque ele era a versão latina dos heróis que sempre tive contato através dos quadrinhos, sempre mostrando as referências norte-americanas com físico perfeito e nervos de aço, qualidades que o Chapolin não tinha, ao menos não por completo. O Chapolin é um herói mais humano, mais próximo de nós.

Segundo, porque o Chapolin sempre tinha a capacidade de ser convocado, como uma entidade sobre-humana, quase divina, mas com aquele toque de intimidade que aproxima os seres superiores dos humanos normais. A frase “Oh, e agora quem poderá me defender?” não era só um mantra, mas uma forma de ligação entre nós e a nossa própria força interior. E para mim, o Chapolin Colorado é a personificação da força dentro de cada um de nós.

Terceiro, porque este herói era munido das armas mais “nonsense”, e ao mesmo tempo mais versáteis do mundo! Pense numa marreta biônica, arma capaz de amplificar a força do Chapolin em muito, ou numa corneta que tinha o poder de paralisar as pessoas por completo, só com um toque! Ou pílulas contendo um composto capaz de reduzir o tamanho da pessoa que o tome, uma artimanha usada para acessar locais fora do comum, para resolver seus problemas!

Assim como eu passei a admirar as vitórias gloriosas de Chapolin contra seus inimigos, outra criança muito especial também sempre admirou a coragem e a astúcia que nascia e renascia dentro deste herói fora do comum: o pequeno Chaves, o órfão que mora na casa número 8 da Vila mais conhecida das Américas.

O pequeno Chaves, que nunca conheceu seus pais, usa como esconderijo um pequeno barril que fica no meio desta vila, e normalmente é usado como local de abrigo para o corpo e também a mente. É uma excelente representação do nosso próprio subconsciente, que abriga a nossa criança interior, tão indefesa e cheia de medos e curiosidades por tudo que acontece pelo mundo.

Mas o mundo do pequeno Chaves também não parecia ser muito grande. Sua felicidade residia no prazer de um sanduíche de presunto, nas brincadeiras com seus amigos, o mimado e exibido Quico, a esperta e extrovertida Chiquinha, e o pomposo e exagerado Nhonho, dentre outros. Além de ter toda a sua admiração apontada para a tímida Paty, sua paixão incontrolável.

Suas aventuras viajavam pelo tempo, criavam novas formas de visão, alcançavam lugares inimagináveis, sem sair de dentro do espaço da Vila. A única vez em que Chaves deixou os limites desta Vila foi quando, a convite do proprietário dos imóveis, o tolerante Sr. Barriga, o pequeno notável foi até a cidade de Acapulco, mas não deixou de aprontar suas peripércias por lá.

Todos os dias, desde a época em que me reconheci por pessoa até o dia de hoje, os personagens de Bolaños fazem parte do meu cotidiano. Sempre que um programa dele passa na televisão, me sinto atraído a assisti-lo, uma força magnética irresistível gerada pelo humor simples, sem grandes efeitos especiais nem malícia no comportamento dos integrantes do programa.

Portanto, saber que um Artista desta magnitude, que é conhecido por toda a América, quiçá pelo mundo, como um integrante da vida das pessoas, deixou de existir, não é tão triste assim. E sabe por quê?

Porque ele pode ter a certeza de que cumpriu o objetivo da vida dele, fazer parte da vida de todos. Portanto, seu descanso é mais do que merecido. Mesmo sabendo que uma referência profissional como esta vai fazer falta, eu o agradeço por todo o trabalho que fez por nós, e o parabenizo pelo sucesso.

Eu nunca vou esquecer o Sr. Roberto Gómez Bolaños, mesmo que não o tenha conhecido pessoalmente.

E ele soube que isso faz toda a diferença.

Por Marcos Moreira: ¡Buen descanso, pequeño! ¡Gracias, mi héroe!